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a angústia e a exaustão

Ontem, meus estudantes do médio se organizaram para realizar um ato de protesto contra uma vereadora bolsonarista que resolveu denunciar a escola (direção e uma professora) por "doutrinação petista" porque uma prof. comparou uma propaganda de Flávio com uma do Mussolini. Fizeram cartazes, ensaiaram discursos, gravaram vídeos pros perfis deles e começaram o rascunho de uma nota que o grêmio estudantil vai lançar. Alguns até aproveitaram para ir com os cartazes e tudo na caminhada da virada de ontem na nossa cidade.

O orgulho que eu senti deles foi gigante. A minha exaustão de ver eles terem que fazer isso também.

Isso tem virado pela minha cabeça essa semana toda? E eu ainda não encontrei as palavras certas e/ou apropriadas para despejar isso em algum lugar.

Os meus pais tinham a idade desses meus alunos durante a ditadura. Cresceram sem ter o direito ao voto, fugindo da polícia quando andavam em grupo, sabendo de amigos que sumiram por terem sido presos e torturados. Eles foram para as ruas no movimento das Diretas Já e, desde então, nunca perderam de votar em uma eleição.

Eu cresci com eles me levando em comícios e bandeiraços, com a minha mãe sempre me dizendo que votar é importante e que a gente não pode deixar "essa gente velha e besta" mandar na nossa vida. (Minha mãe, há uns anos e sempre que possível, só vota em pessoas jovens e negras). Meu pai é Lulista e me ensinou, desde cedo, que se eu tenho que trabalhar para me sustentar então eu sou pobre. E pobre deve votar sempre em quem é a favor de pobre e do trabalhador.

Os meus alunos, na maioria, têm noção que são minorias e que são marginalizados. Pobres, negros, LGBTQIA+. Eles sabem que dependem de políticas públicas para chegar na escola, ter o que comer, cuidar da saúde. A possibilidade de tudo isso ser cortado da vida deles tá deixando eles numa indignação e raiva enormes.

O fato de uma vereadora ter aparecido na escola deles para desfazer de um espaço seguro que pertence à eles para acusar uma professora? Inaceitável. Como deveria ser. E eles sabem que, dependendo dos resultados de amanhã, isso vai se tornar algo comum.

Hoje, quem vai para as ruas sou eu. São os meus amigos. Meus colegas. E são os meus alunos.

Os meus pais não têm mais condições de participar da maioria dos atos com caminhadas que foram convocados nesse último mês. O corpo e a saúde não deixam. Eles lutaram por um futuro melhor por eles e pela esperança de entregar um país mais livre pros seus futuros filhos (eu mesma!). E cá estamos de novo.

Eu gosto de brincar que eu não preciso parir nenhum filho porque eu já tenho 800 deles na escola onde sou professora. Quando eu sumo na multidão, grito, pulo, abraço gente que eu não conheço, choro e sorrio? É por mim, mas é por eles. Para que eles continuem com o direito de se movimentar contra as injustiças que eles percebem no cotidiano, para que eles tenham como estudar e viver a vida deles, para que eles saibam que eles não estão sozinhos e que a comunidade em volta deles tá aqui: na luta, junto. Sempre junto.

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